entre palavras e saliva
vai a lingua sobre superfície
ora plana, ora protúbera
de teu corpo
avança a lingua
com sua estrutura malemolente
nada fixa
movente
por entre as dobras de teu corpo
ora são os sentidos
ora são os predicados que acompanham
esse corpo que fala
que suspira
que geme
que grita
que lambe
que goza
constrói-se assim linguagem única,
uma poética de sentidos.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Vozes
As vozes que escutamos ao longo da vida são também as vozes que nos constituem. Parte de nós está relacionada ao que entra através dos nossos ouvidos e penetra o nosso ser de várias formas. Algumas vezes são vocalizações suaves e delicadas, outras vezes agressivas, tempestuosas e até mesmo violentas. Algumas vozes se tornam tão marcantes que é possível que continuemos a escutá-las por muito tempo, mesmo quando seus locutores não estejam presentes, guardadas na memória. Memória afetiva. Em algum lugar do passado, num momento fortuito, soou um canto inesquecível. O momento se foi porém o canto até hoje está vivo nas entranhas fazendo emergir emoções revisitadas ou até mesmo novas emoções. Fazendo emergir também outra voz. Uma voz atravessada por outras que, mergulhadas no esquecimento ou não, podem a qualquer momento soar no presente.
Marta Aurélia
Marta Aurélia
DRISHTI, poema de Marta Aurélia
Olhar de Buda
olhar de Brook
olhar de Vigo
das mulheres de Kodax
de Wenders
de Saramago
através da janela de quem vê com tudo
com as vísceras
com a veia
com a nuca
com a respiração
Olhar no além
para além dos olhos
para além da alma
para além do além
Olhar calmo
olhar no tempo de enxergar
olhar de pescador
de meditador
de quem medita a cor e a flor do mundo
no fundo é como existirmos em alma sem dor
olhar de Brook
olhar de Vigo
das mulheres de Kodax
de Wenders
de Saramago
através da janela de quem vê com tudo
com as vísceras
com a veia
com a nuca
com a respiração
Olhar no além
para além dos olhos
para além da alma
para além do além
Olhar calmo
olhar no tempo de enxergar
olhar de pescador
de meditador
de quem medita a cor e a flor do mundo
no fundo é como existirmos em alma sem dor
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Acústica e Movente no palcão do Theatro José de Alencar domingo, 06 de fevereiro de 2011
Nesta foto: Marta Aurélia, Jorge Santa Rosa, Erivan Produtos do Morro, Felipe Breier, Ivan Timbó, Marco Leonel Fukuda, Aristides Neto e Natasha Faria
Foto: Iago
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Acústica e Movente no Foyer do TJA: momentos
Foyer do Theatro José de Alencar
com Ivan Timbó ao piano
com Marco Leonel Fukuda ao violão
Fotos: Fernanda Oliveira
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
ao léo
Um tanto à deriva, perde ele as contas dos passos que dá. Era só reminiscência de infância a brincadeira de contar os passos. Um, dois, três pareceu ouvir o som de sua própria voz quando contava para, ao se escutar, sentir-se acompanhado de alguém, no caso, de si mesmo. Por instantes, a incrível paisagem lhe remeteu ao dia em que passeava colado à saia de sua mãe, quando teve sua primeira experiência de sublime que sua memória alcança neste momento. Sua mãe tinha o poder de lhe fazer sentir-se livre. Talvez pressentisse sua ida precoce.
Diante do infinito, entretanto, amedrontou-se. Nunca havia se deparado com algo tão imenso que seus olhos não pudessem medir. Assaltou-lhe um instante de vertigem, como se o chão fugisse aos seus pés. Sentiu medo de se desligar de sua mãe. Imaginou, repentinamente, que ela desapareceria no horizonte sem fim levada pelo vento e por isso agarrou sua mão com força. Tanta força que ela lhe sorriu com carinho esclarecedor, e, como quem entende o que se passa com o menino diante do mundo dos grandes, sussurrou, confortando-lhe, um breve não tenha medo, estou aqui.
Diante do infinito, entretanto, amedrontou-se. Nunca havia se deparado com algo tão imenso que seus olhos não pudessem medir. Assaltou-lhe um instante de vertigem, como se o chão fugisse aos seus pés. Sentiu medo de se desligar de sua mãe. Imaginou, repentinamente, que ela desapareceria no horizonte sem fim levada pelo vento e por isso agarrou sua mão com força. Tanta força que ela lhe sorriu com carinho esclarecedor, e, como quem entende o que se passa com o menino diante do mundo dos grandes, sussurrou, confortando-lhe, um breve não tenha medo, estou aqui.
Era tudo que ele precisava naquele momento. Sentir-se seguro no colo de sua mãe. Voltou a contar os passos, quebrando a linha da memória, para seguir. Algumas lágrimas desceram discretamente lhe renovando a disposição diante da paisagem. O vento lhe tocava a pele de modo que se sentia acolhido por tudo que lhe cercava. Sentiu-se parte daquele lugar, desde a vegetação aos animais que menos via e mais ouvia. Sentiu-se parte do próprio vento, parte de tudo. Não precisava correr, apenas ser, daquele jeito, ali. Sua caminhada era um estado interior que acolhia a concretude do seu ser. Sorriu à sua sorte e à saudade!
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